Episódio 7
Se
é certo que a vida se compõe de felicidades e de mágoas, no Jardim do Lago,
como em qualquer lugar, nem sempre o sol brilhava, fora e dentro dos que aí
viviam. Alguns dias eram de alegria, quase um paraíso terrestre de beleza e
harmonia. Mas, por vezes, as plantas pareciam ter perdido o viço e a cor.
Ressentidos, os passarinhos mais cantadores esqueciam então as melodias que
animavam o jardim.
Na
manhã seguinte ao nascimento dos pequenos cisnes, os moradores do Jardim do
Lago começavam, pouco a pouco, a acordar de uma noite húmida e fria. O sol
nascia a medo e um véu opaco teimava em esconder o céu. Os animaizinhos iam
espreitando o alvor, curiosos. As plantas, da majestosa árvore à mais pequenina
erva, todas mantinham a esperança de secar o orvalho que pousara sobre folhas e
pétalas.
Joaninha
abriu os olhinhos minúsculos e reparou que a amiga Joana não estava na cama, a
folhinha do costume, ao lado da sua. No ramo ao lado, viu o gafanhoto Valentim,
ainda meio ensonado. E ouviu os vizinhos pardais, agitando as asas, preparados
para o primeiro voo do dia.
Joaninha
pensou que talvez Joana tivesse acordado mais cedo. O seu pensamento foi logo
desmentido por uma vozinha muito sumida, vinda da base do tronco da árvore
número cinco. Era um “ai” queixoso e repetido...
Num
voo urgente, Joaninha aproximou-se do solo, olhou em volta e descobriu o que
procurava: sobre uma folha seca caída na relva, Joana, de patinhas para o ar,
rodava e esperneava, num lamento contínuo e vagaroso. Valentim também fora
atraído pelo pranto da amiguinha e aproximara-se.
–
Joana, estás doente? Diz-nos o que aconteceu... Vamos ajudar-te a virar. Força,
Valentim, dá uma patinha!
Joana
não respondia, só dizia baixinho “ai... ai...”. Desgostosos, os amigos perceberam
que ela não iria viver por muito mais tempo e que a única coisa a fazer seria
ficarem ali, junto dela, em silêncio. Talvez a sua presença amiga fosse
reconfortante para o insetozinho moribundo. Era a última prova de amizade que
podiam oferecer-lhe. Ouviram, de novo, um “ai...”, ainda mais desfalecido.
Viram-na fechar os olhinhos e ficar imóvel, na suave doçura de quem adormece.
Só que desta vez não iria acordar.
Uma
chuva miudinha começou a cair sobre a relva. Joaninha e Valentim pensaram que a
natureza estava triste, que chorava, como eles, a partida de Joana. Era apenas
um insetozinho, é verdade que há milhões de insetos, mas para a natureza, mãe
de todos, cada filho é especial.
(continua)
J. M.
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